




Nunca tudo foi tão para ontem. Os avanços tecnológicos, ao mesmo tempo em que empurraram a humanidade para um desenvolvimento sem precedentes, também a encaminharam para a beira de um precipício. As informações estão aí, disponíveis em todas as mídias, em tempo real. Mas não sabemos o que fazer com elas. Máquinas substituem homens. Com essa troca, a produtividade aumenta na medida em que os prazos são reduzidos. Alteram-se tecnologias, produtos, serviços. Todavia, mudar uma cultura, alicerçada nos valores dos seres humanos, requer mais tempo. Esse gap temporal nos leva a correr permanentemente atrás do tempo perdido, que escorrega por entre os dedos e nos atropela. Estamos na parte de baixo da ampulheta, vendo e sentindo a areia cair sobre nossas cabeças. Bem-vindo à era da velocidade. É bom que você se adapte a ela. E rápido. Afinal, o mundo não vai desacelerar para você nele embarcar.
“Esse é basicamente o cenário. Uma situação perfeita para o surgimento de pessoas angustiadas”, afirma Victor Mirshawka Junior, diretor da Pós-Graduação da Faap e especialista em Solução Criativa de Problemas. Pudera. O ser humano vivencia uma frustração constante quando se dá conta que consegue conversar com gente do mundo todo a qualquer momento, que pode se dividir em incontáveis tarefas, mas está perdendo a capacidade de olhar o que é verdadeiramente importante, como uma conversa olho no olho com um amigo. É esse homem em crise a matéria-prima com a qual os RHs têm de trabalhar.
Para Mirshawka Junior, autor da palestra A Era da Velocidade, o RH precisa mudar o foco de trabalho. “As competências técnicas são e sempre serão importantes”, diz. “No entanto, cada vez mais, formar pessoas capazes de se adaptar será um diferencial de relevância”, completa. Na prática, isso significa que, mais do que um ofício, os profissionais precisam estar condicionados a aprender várias tarefas e rapidamente, de acordo com as necessidades. Uma qualificação que vai ao encontro do ritmo frenético no qual o mundo corporativo está mergulhado.
Essa nova visão, aparentemente simples, mas capaz de alterar drasticamente o quadro atual, só é possível se o departamento responsável pelas pessoas for encarado – e se assumir – como um elemento estratégico para as companhias. O consultor Joaquim Patto, da Mercer, acredita que só um RH capaz de refletir a realidade é capaz de ter entregas que estejam coerentes com as necessidades atuais das organizações. “A falta de informação não pode ser desculpa para a inação. É preciso que os profissionais de Recursos Humanos estejam focados em analisar o mercado e se antecipar, prevendo as demandas do futuro que, com o dinamismo de hoje, é cada vez mais próximo”, diz.
Não à toa, Patto destaca nesse olhar estratégico a preparação das lideranças. “São elas que acenarão para as necessidades e podem auxiliar na formação de gerações de profissionais mais hábeis na lida com as mudanças”, explica.
Ciclos mais curtos
No livro O Paradoxo da Escolha, o autor Barry Schwartz afirma que a falta de opção é nociva ao homem. O extremo oposto, marcado pela abundância de possibilidades, é igualmente – ou mais – prejudicial, por dar margem à confusão e à angústia decorrente da dificuldade de decidir.
E é justamente nessa ponta em que a humanidade se encontra. A geração Y (nome dado aos profissionais nascidos a partir de 1978) é prova irrefutável disso. Os integrantes desse grupo são hábeis, antenados, conectados, multidisciplinares. Perfeito para as companhias atuais, certo? Errado. Por serem rápidos, também querem mudanças velozes. Além disso, carregam uma espécie de falta de fidelidade com as escolhas, por terem muitas opções e desejarem experimentar todas elas. Trata-se de uma luta inglória, mas que tem seus efeitos negativos ofuscados pelo gás que essa turma possui e pela inquietação inerente à juventude.
Esse estado de instabilidade cria profissionais angustiados e insatisfeitos com o status quo. Estudo global realizado pela Mercer revela que o índice de turnover nas empresas é maior entre trabalhadores entre 25 e 29 anos (38%). Ou seja, eles vestem a camisa da empresa por períodos cada vez menores e não hesitam em retirá-la se receberem uma proposta mais promissora. No meio de campo, está, novamente, o RH, fazendo o possível para reter tais talentos. Se ontem bastavam cifras rechonchudas para seduzir os profissionais, hoje o funcionamento não é bem esse. “Houve uma mudança de foco. Atualmente, antes de questões salariais, os profissionais buscam outros quesitos como orgulho de pertencer, respeito pela liderança e apoio ao projeto de vida pessoal”, esclarece Patto.
Diante dessa realidade, um tema começa a ser muito discutido nas rodas de RH: é mais interessante, atualmente, formar equipes por projetos ou utilizar o sistema de contratação baseado na Consolidação das Leis de Trabalho (CLT)? O surgimento dessa questão já é um indício das transformações decorrentes da velocidade, uma vez que, há alguns anos, modelos que fugissem ao esquema dos contratados com a carteira assinada simplesmente inexistiam.
A velocidade e o corpo
A pressa não é só inimiga da perfeição. Ela é rival da saúde também, seja ela física, espiritual, emocional. Não importa. Enquanto corrermos sem critério em busca de não-sabemos-o-quê, estaremos vulneráveis às enfermidades. Para Cyro Masci, médico psiquiatra e ortomolecular, palestrante e consultor de desenvolvimento integral humano, o senso subjetivo de urgência cria um estado de tensão no organismo, com mudanças importantes no funcionamento do mesmo.
Enquanto perdura o senso subjetivo de urgência, a conhecida sensação de pressa, nosso organismo promove modificações para fazer frente a essa emergência. Essa reação é realizada em áreas do cérebro que são muito velozes nas respostas em situações de urgência, mas bem pouco específicas. Em outras palavras, se é urgente (e o senso subjetivo de pressa garante essa informação), não há motivos para refletir, pensar, cogitar, mas, sim uma necessidade imperiosa de transformar o corpo para que ele esteja em condições de enfrentar a qualquer urgência. É um tipo de estresse autoprovocado.
E aí não tem jeito. Dá-lhe enfermidades. “Os sintomas mais comuns são impaciência maior que o habitual; mau humor, irritação por pequenos motivos; sono agitado ou interrompido; falta de interesse pelas atividades rotineiras; apreensão exagerada em relação ao futuro; dificuldade de concentração; grande inquietação, tensão, nervosismo, excitação ou agitação interna; perda de interesse ou de prazer sexual; tristeza, depressão; entre muito outros”, afirma o médico.
E o efeito da velocidade no corpo não se restringe às avarias nele provocado. As mulheres, por exemplo, vêm enfrentando a “aceleração secular do crescimento”. Na prática, isso significa que as meninas estão largando as bonecas cada vez mais cedo. Estudo feito pela Universidade de Copenhague (Dinamarca) atesta que nos últimos 100 anos, é nítida a antecipação da menarca (primeira menstruação): na Europa, em 1840, a idade média era 17 anos. Na década de 1970 reduzira-se para 13 anos, ou seja, uma antecipação de cerca de 3-4 meses a cada dez anos. O Brasil apresenta fenômeno semelhante: de acordo com dados do Hospital das Clínicas, em 1971, a primeira menstruação era aos 13,2 anos. Passados quase 30 anos, em 1999, a faixa etária caiu para 12,1.
Para o herbiatra (médico de adolescentes) Williams Santos Ramos, a melhora na nutrição, o aumento da temperatura média do planeta e os progressos da medicina contribuem para essa maturação precoce. No entanto, a exposição a estímulos a que as crianças estão submetidas é um outro fator relacionado à velocidade que apresenta reflexos diretos no físico e no comportamento das pessoas. “Essas crianças são filhas de pais inseridos no contexto da velocidade e tem, portanto, esse modelo”, explica a psicóloga e pedagoga Fabiana Luckemeyer. “Além disso, pelo fato de os pais geralmente trabalharem fora, a infância dessas crianças fica marcada pelo acúmulo de dados, pela avalanche de informações, seja por meio da televisão, do computador, das conversas com os pais, que são cada vez mais informados e desejam que seus filhos sigam o mesmo caminho. O que contribui e muito para esse amadurecimento”, complementa.
“Contratar profissionais por projetos aumenta as chances de a empresa ter as pessoas certas nos trabalhos corretos e assegura uma flexibilidade interessante para essa nova geração inquieta”, afirma Mirshawka Junior. “Essa é apenas uma questão num amplo espectro que precisa ser contemplado pelos RHs”, finaliza
Há felicidade nisso tudo?
O paradigma já está posto. Não tem como fugir. Mas há felicidade e contentamento nisso? Patto não é muito otimista. “Estamos adoecendo, porque replicamos modelos sem pensar e somos sugados por essa roda-viva.” (Ver boxe)
A questão, completa Mirshawka Junior, é que, antigamente, a tríade tempo,
qualidade e custo tinha, entre si, uma relação diretamente proporcional. “Agora, é possível um produto ou serviço excelente a preços competitivos num prazo menor. Isso altera completamente a ordem das coisas”, explica.
Por alteração da “ordem das coisas”, entenda-se: profissionais enlouquecidos para dar conta do recado. E isso é necessário mesmo? “Tendo a acreditar que estamos correndo atrás do próprio rabo”, atesta Mirshawka Junior. E assim, andando em círculos, a real evolução fica comprometida. Entramos no piloto automático, não sabemos exatamente aonde queremos chegar. “A aprendizagem só ocorre no momento de reflexão, e tudo o que não temos, hoje, é tempo para refletir”, afirma. Responda: É isso o que você quer para você?
Indo a favor do vento
Se a velocidade é irreversível, o jeito é saber lidar com ela com sabedoria, tirar proveito e não ficar remando contra a maré. Quem defende essa tese é Vince Poscente, um dos consultores organizacionais mais conclamados do mundo, integrante do Speaker Hall of Fame e autor do livro A Era da Velocidade. Confira a entrevista exclusiva que o autor concedeu à Revista Canal Rh.
Canal Rh: Essa situação em que tudo é para ontem é irreversível?
Vince Poscente: Esperar que o mundo dos negócios vá desacelerar é olhar na direção errada. Em vez disso, é preciso procurar formas de acelerar com menos esforço, mais equilíbrio e melhores resultados. Não se angustiar com ela e aproveitar a velocidade das coisas para nos sentirmos livres.
Canal Rh: Mas a era da velocidade é também a era da
ansiedade, não?
Poscente: Sim, por enquanto. Mas isso vai mudar quando as pessoas descobrirem como retomar o controle. Temos ansiedade quando nos sentimos oprimidos. Lembre-se de que, em meados de 1990, “mudança” era a palavra que causava ansiedade das pessoas. No entanto isso mudou, quando percebemos que ir em direção à prosperidade
lutando contra a mudança não era o caminho. Aceitar e gerir o processo, participando dele, faz com que sintamos que estamos no controle. O mesmo ocorre hoje: é preciso apren- der a lidar com a velocidade e participar deste momento de adaptação, percebendo que as alterações são boas e produtivas. Ao conquistar o equilíbrio e o controle, distancia-se da ansiedade.
Canal Rh: O medo do novo cria desconfiança...
Poscente: Pense na primeira vez que você andou de bicicleta. O conselho do seu pai era para você manter a pedalada. O instinto, porém, era obter o equilíbrio primeiro para, então,
pedalar. Isso gerou angústia e ansiedade, mas quando seguiu
o conselho, e pegou velocidade, e conquistou o equilíbrio. Assim, adquiriu controle, o caos se foi e tudo se tornou divertido. Aceitar a velocidade e lidar com ela pode ser
divertido e o leva adiante. Eis um dos motivadores da vida.
Canal Rh: Somos escravos da tecnologia?
Poscente: Na maioria dos casos, sim. Por exemplo: a tecnologia, como o Blackberry, pode ajudar com a eficiência de alguém, mas, se mal utilizada, vai criar reféns e será um atraso de vida, na medida em que vai aumentar o estresse e, consequentemente, reduzir a produtividade. É muito importante que as pessoas controlem a tecnologia em seus termos e não o contrário.
Canal Rh: Para onde estamos indo?
Poscente: Ao que parece, para o caos. Recentemente, participei de um programa de rádio em San Francisco (EUA) no qual os apresentadores estavam enlouquecidos com seus Blackberry. Eles eram verdadeiros prisioneiros. Isso é ridículo. E muita gente é como eles: pensam que serão melhores profissionais se estiver hiperconectados, pois estarão disponíveis 24 horas por dia, sete dias por semana. Esse é um pensamento tolo, do século passado.
Canal Rh: A velocidade é o atestado de qualidade das empresas nos dias de hoje?
Poscente: Não. A velocidade não é garantia de qualidade. Alinhamento, comprometimento e redução de desperdício (inclusive de tempo), sim.
Canal Rh: Como as pessoas devem lidar com esse novo paradigma?
Poscente: Existem três qualidades essenciais necessárias para prosperar no nosso mundo “eu quero tudo para agora”. Primeiro, encontrar uma maneira de estar
alinhado. Isso significa que a direção que você escolher lhe dá energia. Se você perder o seu foco, interesse ou energia em uma tarefa, você só vai postergar. Em segundo lugar, ser ágil na velocidade. Isso significa não lutar contra ela, e aceitá-la com sabedoria, sabendo como tirar proveito dela. Em terceiro lugar, ser sábio. Em outras palavras,
elimine as barreiras que empacam processos. Uma das causas que emperram processos, por exemplo, são as interrupções. É importante saber priorizar e focar
em uma tarefa. É difícil, mas muito necessário.
















